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Flor amarela

Olhou da janela Viu ali no cantinho Discreta e onipresente Uma flor amarela Nasceu para ela Assim como o sol A felicidade já tinha feito morada ali E deixou marcas Histórias que os objetos contavam Cheiros que fugiam dos livros Arrepios que brotavam nas músicas Por um tempo parecia que ele havia levado dela o tempo, os sonhos, o sorriso Mas nada que a flor amarela não tivesse trazido de volta "Mas eu fiquei, me levantei, e o sol nasceu pra mim, no meu quintal nasceu novo jardim Eu acordei, me espreguicei, olhei pela janela, no meu jardim nasceu flor amarela"

Rosas vermelhas

Ele sabia que não tinha mais o que dizer. Gostava dela, era verdade, mas estava certo de que não poderia se entregar. Num ato meio impensado, tentando mantê-la por perto, enviou flores. Ela estava em casa quando tocou o interfone. "Flores para Maria!". Ela desceu ao portão com o coração aos pulos. Pegou o buquê e foi logo pegar o cartão. Cartão? Cartão? Onde estará o cartão? O entregador tinha ido embora. Ela estava certa de que o cartão ficara caído no carro de entregas. Estava ávida por ler a declaração que ele finalmente fizera. Ligou para a floricultura. "Não, senhora, não tinha nenhum cartão junto das flores". Ela olhou para as rosas vermelhas primeiro com desprezo. Depois com ódio. Queria por escrito o que as lindas flores poderiam um dia dizer. Jogou o buquê no lixo. Sem falsas promessas, nem mesmo as das rosas.

Oi

"Oi, namoradinha", disse ele, com um sorriso maroto e uma piscadinha irresistível. Ela só conseguiu ficar vermelha, com o coração disparado. Eles nem imaginavam, mas vivam ali uma emoção que buscariam sentir outra vez a vida toda. O coração dela marcou ali a o ritmo descontrolado dos batimentos que buscaria vida afora. "E você deixou ele entrar?", perguntou a avó, ávida pelas histórias da neta. Aquele coração que bateu descompassado tantas vezes, buscava naquela narrativa mais alguns saltos. Tragava as histórias da neta para alimentar os caminhos que o corpo dela inventara anos a fio.

Vem cá meu bem

"Gosto de ver você dormindo, que nem criança com a boca aberta" Você ali entregue, despido da armadura, jogado na minha cama O seu sono tranquilo me diz tantas coisas lindas "Vamos chamar nossos amigos, a gente faz uma feijoada Esquece um pouco do trabalho, e fica de bate-papo" E entre uma conversa e outra, cruzo o meu olhar com o seu O seu olhar também é minha casa Eu acredito nos seus gestos Gosto das suas palavras Me embalo no seu ritmo "Vem cá meu bem, que é bom lhe ver O mundo anda tão complicado Que hoje eu quero fazer tudo por você"

278

Destino de praxe, trabalho de sempre, hotel de praxe Boa tarde, senhora, seja bem vinda mais uma vez, o seu quarto é o 278 Subiu as escadas Abriu a porta 278 Não acreditou! Diferente de todos os outros, o 278 tinha um banheiro enorme, uma banheira de hidromassagem enorme, e, ainda, todos os mimos de sais, sabonetes e cremes O mesmo destino, o mesmo hotel, o mesmo corredor, e um presente da vida com o número 278. O corredor era como as noitadas Mesmo destino, mesmos rostos, as mesmas conversas Estava sempre ali e já nem esperava nada diferente Nem acreditava que diante de tantos olhares um deles traria boas surpresas, pequenos encantos, como o 278.

Saudade

E lá vem a danada Já disse que não Jurei nunca mais E ela vem Se achega Faz um denguinho Pede pra ficar Ela surge quando um gosto lembra Uma descoberta quer ser contada Uma sensação quer ser compartilhada A diaba da saudade não tem controle Se apresenta e pronto Não tem perdão Nem juízo Tem vontade de querer estar pertinho

Ela faz cinema

Ela olhou nos olhos dele Sorriu Mordeu levemente os lábios  Desatou os longos cabelos negros A partir daí ele sabia Se perderia no corpo dela Ficaria entorpecido Era o céu Ela se vestiu De novo olhou para ele Desta vez desviou o olhar Um sorriso leve Um beijo seco Ele fez o café Ela tomou em silêncio Ela calçou os sapatos Ele assistiu a cena Ela não voltaria E a presença dela por tempos ficaria ali.