Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo viver é perigoso

Dar conta

Para que fiquem juntos, é preciso e inevitável passar por três estágios: 1. o interesse 2. o desejo 3. o dar conta. O interesse desperta o flerte, a curiosidade, aquele gostinho de quero mais. O desejo é o encontro, a escolha, o coração aos pulos, aquele frio na barriga. O dar conta, ah, dar conta é outra história. É o emocional vestido de racional, são as vísceras gritando, os medos dando o tom. dar conta é tornar realidade a mistura de vidas, a junção de rotinas. É em parte se refazer e um bocado de coisa redimensionar para caber o outro. É dar conta de ser no plural. É manter o amor por si mesmo e também pelo outro. Dar conta é o exercício diário. Depois de dar conta ainda tem dias que despertam o interesse, e noites que alimentam o desejo.

Sinônimos

E como poderia ser amor outro que não o puro acolhimento A suavidade dos toques que mudam o caminho das veias A narrativa densa que embala os alicerces nada retos da existência A confusão das vidas compartilhadas num porre de paixão com alguma lógica E como poderia ser amor outro que não essa insanidade que cura Essa mistura de vidas cheias de arestas Esse pulsar de mãos dadas Esse abraço caloroso Essa história de nós dois

Não dito

Perto dela, lhe fugiam as palavras As mãos ficavam inquietas A respiração falhava E os olhos se enchiam de tanta qualquer coisa que ele não sabia nomear Perto dela, as coisas pareciam tão diferentes do que ele planejou, que era melhor se manter longe Mas daqui a pouco Ele queria olhar para ela mais um pouquinho.

Estações

É fácil amar alguém no verão As peles coradas O sol para todos A exuberância em qualquer lugar Se vai amar alguém Observe como fica no outono Quando caem as folhas E ficamos despidos Amor que persiste suporta o inverno Aquele vento frio que nos joga bem pra dentro As noites longas sem estímulos externos E só o calor dos corpos pode nos aconchegar E fique muito atento na primavera Só quem se permitiu viver as estações E manteve as boas sementes Vai ter o que florir

Indiscreta

A noite foi de revelações Indiscretas Íntimas Indecentes Ele levaria dali muitas imagens Cheiros Gostos Sussurros Mas a imagem fixa Perturbadora Era da tatuagem dela Pequena, que ocupara todo o pensamento dele

Bela da torre

E, no imaginário, sempre chegaria um homem forte para salvá-la da torre e do dragão. Forte, inteligente, gentil, lindo e apaixonado (e rico). Se era forte, não parecia inteligente. Se era inteligente, nada gentil. Se era apaixonado, não era rico. Se era lindo, não era forte. E, cá prá nós, ninguém está interessado em lutar com dragão para salvar a donzela. Donzela? Então cabia a ela ser forte e inteligente. Gentil, claro, com quem merecer. Com sorte, viveria paixões.  Feliz, seria linda. Rica já era querer demais. Fez da torre o lar. Fez amizade com o dragão. Quando dava, passeava na floresta. Se tudo desse certo, esbarrava com o lobo mau.

Casulo

Reza a lenda que a borboleta, antes de sair do casulo, se enrola um pouco mais naquele emaranhado. Os primeiros movimentos das asas parecem desconformes, sem sentido, ou razão. Antes de bater asas pela primeira vez, ela abraça o casulo e sente o quanto o amou. Até se entregar ao vôo inevitável. Sexta feira da Paixão é dia de amar o casulo.

Dragão

Todo mundo tem um dragãozinho dentro. Cada um tem o seu. Todos diferentes. Vida afora, a gente precisa conhecer o próprio dragão.  Saber do que ele se alimenta e porque se enfurece. Dragão faminto solta fogo pelas ventas. A meta é manter o dragão alimentado , mas sem ficar forte demais. Dragão domesticado. Regrinhas: 1. Se o seu dragão estiver muito agitado, aumente a dose de comida por um tempo. Leva o dragão pra dançar, se ele for da farra, ou veja uma série inteira em um único final de semana, se ele for do sofá. Mas atenda a demanda dele. Dragão entediado solta fogo pelas ventas. 2. Quando outra pessoa conhecer o seu dragão (isso fatalmente acontece quando ele solta fogo pelas ventas), tente agir com naturalidade e tire o dragão da cena. E, quando conhecer o dragão do outro, disfarce. 3. Nunca, jamais, em tempo algum, coloque o seu dragão na sala de estar com o dragão de out...

Conexão

Amar é uma bagunça O cheiro dele nas roupas dela A voz dela nos desejos dele A aflição dele no peito dela O sorriso dele mais lindo na presença dela Amar é um sopro divino De conexão de almas Que se misturam E podem tudo do outro Mas se bastam com as mãos dadas E o sorriso que vem do querer bem

Gênio

Era a lâmpada do gênio Ela podia pedir qualquer coisa - Faça seu pedido! - Eu quero sentir menos. - Como? Posso te dar o que quiser, e você quer menos? - Sim. Não quero que o mundo mude. Quero eu sentir menos, querer menos, me conectar menos. - Mas você é porta-bandeira do amor. - Eu sei. Quero outra bandeira. Talvez a do controle emocional. Isso! Quero a bandeira da razão. Quero gostar de café com adoçante.  Quero que nada me atrapalhe na minha rotina. Quero ter uma alimentação rigorosamente saudável.  Quero manter uma distância das pessoas que me garanta a convivência.  Quero ver TV sem achar ruim. O gênio sentiu o coração apertar. Deu a ela uma garrafa de vodca e prometeu voltar daí a uns dias, quando ela recuperasse o juízo.

Colcha de retalhos

Tinha a alma feito colcha de retalhos Marcas Histórias Detalhes e narrativas Muitas cenas Gastas pelo tempo Mas ainda lindas Com e leveza do amadurecimento A colcha Tão ela Aquecia o amor Que acabou de chegar

Vasto mundo

Há dias em que não tem jeito O mundo parece mesmo feio Festa estranha com gente esquisita O céu fica nublado As flores se escondem Os sorrisos ficam tímidos As mãos geladas O silêncio morada da angústia A falta que você me faz Há dias em que os seus beijos são a minha única cura

Nublado

Os descaminhos do governo deixaram nublada a primavera O segundo turno municipal faz a orquídea esperar um pouco mais pra brotar Ou logo murchar após levemente nascer Os dias sombrios abalam estruturas Diante do feio imposto Busco a pequena beleza instalada Mora nos cheiros Nos beijos Nos sussurros Nas pontas dos dedos Em lugares nada escondidos Onde estamos eu e você

Fogo

Tinha um dragãozinho dentro Que se alimentava das palavras não ditas Quando ficava com a pança cheia Soltava fogo pelas ventas E queimava o mundo real que não foi Devidamente, carinhosamente Verbalizado

Check list

Todos os dias, antes de dormir Fixava o pensamento no que importava O cheiro dele no travesseiro A lembrança do toque O sorriso de um amigo O beijinho de uma criança A música linda que tocou no rádio A luz do sol da manhã Com sorte, aquela lua O resto não importava Podia ficar pra amanhã

João Bobo

O coração era João Bobo Se animava Apanhava Caía E encarava uma outra vez A cada volta Um hematoma Uma descoberta Uma música na caixola Uma certa vertigem E um desejo incontrolável De se animar mais uma vez A dois

Desisto

Tá, eu desisto Desisto de ser forte Desisto de carregar bandeira Desisto da fé nos dias melhores Desisto da certeza de que duas pessoas ficam juntas pelo principal motivo de se fazerem bem Desisto da política Desisto de lutar contra o machismo contra a homofobia e o racismo Eles venceram E eu mal sei quem eles são Apenas que são muitos

Tão meu

Quando se viam, escondiam as alianças Não por nada, apenas era melhor assim Enquanto falavam do dia que esfriou E lamentavam o caos da política do país Os pensamentos vadiavam Os lábios tinham lembranças Era apenas isso E cada um voltava para a vida que escolheu

Confissões

Tá, nem sou tão moderninha Sonho com um amor bem careta Daqueles das músicas que ouço repetidamente Me escapolem algumas lágrimas quando topo com um coração fechado E reconheço os calos doloridos de recomeçar outra vez Mas o riso é espontâneo Os olhos brilham As conversas fluem E os dias vão passando Numa velocidade assustadora Um de cada vez

Now

O meu tempo galopa Retumba no peito Escorre pela alma Domina os pensamentos Dentro de mim O que me revira O que me inflama Faz morada no agora Agora O sal do suor O arrepio da pele O sussurro no ouvido Agora A ausência A interrogação A torcicolo no pescoço Depois O corpo esfria Os pensamentos se organizam E o meu relógio finge ser normal