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Mostrando postagens com o rótulo travessia

Sinônimos

E como poderia ser amor outro que não o puro acolhimento A suavidade dos toques que mudam o caminho das veias A narrativa densa que embala os alicerces nada retos da existência A confusão das vidas compartilhadas num porre de paixão com alguma lógica E como poderia ser amor outro que não essa insanidade que cura Essa mistura de vidas cheias de arestas Esse pulsar de mãos dadas Esse abraço caloroso Essa história de nós dois

Estações

É fácil amar alguém no verão As peles coradas O sol para todos A exuberância em qualquer lugar Se vai amar alguém Observe como fica no outono Quando caem as folhas E ficamos despidos Amor que persiste suporta o inverno Aquele vento frio que nos joga bem pra dentro As noites longas sem estímulos externos E só o calor dos corpos pode nos aconchegar E fique muito atento na primavera Só quem se permitiu viver as estações E manteve as boas sementes Vai ter o que florir

Para costurar o coração de uma mulher

"Para pisar no coração de uma mulher, sapatilhas de arame, o balé belo e infame" Salve Chico César E para costurar o coração de uma mulher, a doçura em atos de leveza, o de repente de uma beleza Para costurar o coração de uma mulher, dias em silêncio e noites de choro, e as flores brotam em coro Para costurar o coração de uma mulher, carinhos sublimes na alma, embebidos de riso e calma Para costurar o coração de uma mulher, noites de lua e mãos decididas, atadura do pranto e das feridas Para costurar o coração de uma mulher, o tempo, o vento, os passos, os abraços, os beijos, os desejos.

Orgânico

Quero a vida com o tempo orgânico Fases da lua, crepúsculo, altas e baixas das marés, solstício, primavera, dias e noites Quero o amor colhido fresco Depois da semeadura, as podas, as intempéries, as pragas, o pólen, o beija flor, o tempo da espera Quero orgânico Sem protetores químicos Nem catalisadores Quero o amor puro Com suas imperfeições E sabor único

Adoçante

Marcaram num café.  Era mesmo despretensioso o encontro.  A conversa ia tateando. Ele se apresentando como um homem forte. Ela ressabiada. Chegaram os cafés.  Ela tomou quente e puro. Ele pediu o adoçante.  Colocou muitas gotas. A incompatibilidade de gênios estava posta.

Tatuagem

O passeio dos dedos pela pele ia cravando mensagens no corpo Registros de um amor espontâneo, vivido no tempo mágico do agora As breves missivas viraram tatuagens invisíveis daquilo que nutre o bem querer E também cartas jogadas ao mar, ao amar, para serem encontradas nos encontros da vida

Depois do fim

Diante do fim inevitável Exuberante Concreto Eles precisavam escolher Ou se soltavam e fantasiavam flores (de plástico) no passado Ou se agarraram aos espinhos miúdos e doloridos que estes sim para sempre uniriam a alma dos dois

Merecimento

Você merece alguém que te olhe nos olhos, que mergulhe na sua imensidão, e se permita ludibriar Você merece alguém que se interesse por cada pedacinho da sua pele, as diversas reações ao toque, os segredos sussurrados dos arrepios Você merece alguém que te entorpeça e depois se retire, que te mantenha inteira, que o amor os preserve como dois Você merece alguém que não mereça os seus demônios, que aumente o seu desejo de controlar seu lado vil, que não conheça a sua pequeneza Você merece alguém que também merece você, que semeie um amor leve, tranquilo e bonito, assim como você decidiu fazer

Menina má

Em 2016 Não fui uma boa moça Disse não Bravejei contra uns Olhei nos olhos no ano E rosnei Também Me deixei sentir O silêncio que vem de dentro Os sussurros da noite Os recados do corpo Os toques suaves na alma Joguei pedras Quebrei vidraças Semeie flores Colhi amor

Quase

Ainda faltam 45 dias E já aprendi que isso é tempo demais para um ano intenso Mas já se pode dizer unas cositas sobre este 2016: O grande meteoro bateu na Terra e ele se chama estupidez A adversidade provoca mudanças estruturais, o que tambem pode ser bom O amor se multiplica, e brota de novo, onde a gente se permite ver. 2016 está prestes a acabar, mas suas marcas permanecerão por anos, anos de travessia .

Colcha de retalhos

Tinha a alma feito colcha de retalhos Marcas Histórias Detalhes e narrativas Muitas cenas Gastas pelo tempo Mas ainda lindas Com e leveza do amadurecimento A colcha Tão ela Aquecia o amor Que acabou de chegar

Exu

Moça, suncê passou por muitas coisas Hoje a moça está madura Tomou as decisões certas Olha, moça, suncê é formosa Precisa abrir o leque do amor Não importa mais o que passou Olhar olho no olho dos candidatos E se permitir amar outra vez Tá precisando, moça

Impregnada

Olhou a alma a fundo Viu do que estava impregnada Havia um cansaço crônico da lida Alguns temas mal digeridos Uns palavrões não ditos Amores guardados Engavetados Havia também melodias Perfumes Poesias Essas coisas que enfeitam Sem pra quê Tudo precisava ser lavado Para a alma ser leve E poder voar

E se lagarta

E se os planos não tivessem dado errado Eu não teria descoberto como me refazer Se a dor não tivesse sido tanta Eu continuaria ignorando o pequeno milagre de sorrir Se a caixinha tivesse me servido Eu teria apenas uma forma Se a vida tivesse saído como eu - ainda tão menina - planejei Jamais saberia o sentido da liberdade Abri o peito Perdi as rédeas Aprendi o ritmo de cavalo bravo E também das borboletas O silêncio, as cores, a pele e o sorriso

Confissões

Tá, nem sou tão moderninha Sonho com um amor bem careta Daqueles das músicas que ouço repetidamente Me escapolem algumas lágrimas quando topo com um coração fechado E reconheço os calos doloridos de recomeçar outra vez Mas o riso é espontâneo Os olhos brilham As conversas fluem E os dias vão passando Numa velocidade assustadora Um de cada vez

Estrelas de testemunhas

São os últimos versos que te escrevo Nesta noite linda Pra acalmar esse coração Pra aceitar o que está posto São os ultimos versos que te escrevo Nesta noite fria Pra recolher o amor Pra me refazer mais uma vez São os últimos versos que te escrevo Nesta noite mágica Pra te devolver o que nunca foi meu E finalmente dizer adeus

Bom velhinho

Natal é dia de acender o lampião antigo Suportar o cheiro do querosene E sair caminhando pela alma Entrar no coração e olhar para os sentimentos Deixar pulsar o que está vivo Cuidar do que está ferido Talvez o bom velhinho seja esse lampião Antigo, analógico,  nada fácil Mas tão necessário Por sua luz

Mandacaru

O vento foi certeiro O solo estava fértil A semente foi acolhida O mandacaru floresceu A chuva mansa cai Perto tem adubo Precisa de disciplina para as podas  Paciência para o tempo certo E trabalho diário feito com as mãos As minhas e as suas

Virada

Chegou a hora. A última hora do ano. Hora de admitir que está tudo posto. O bom e o ruim. Os erros, os deleites, os excessos e as gargalhadas. Tudo (não) feito. Arrancou a etiqueta do vestido novo. Calçou o salto alto. Se perfumou. Enquanto se maquiava, lembrava das marcas deixadas pelo ano velho. Teve aquele amor que talvez teria dado certo. Teve aquele momento de lucidez, tão importante. Tem aquela história que ficou pro ano que vem. Teve ombro pra amiga amada. Teve conversa séria. Teve momento de desolação. Teve dia que nem devia ter começado. Teve noite que valeu por uma vida inteira. Teve sentimento. Teve verdade. Tem gratidão. Ficou pronta. Linda com o sorriso que vinha de dentro. O ano bem vivido iluminava os olhos. Acendeu uma vela. Agradeceu. Soprou o fogo pra deixar o passado ir. Vem, 2015!