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Dar conta

Para que fiquem juntos, é preciso e inevitável passar por três estágios: 1. o interesse 2. o desejo 3. o dar conta. O interesse desperta o flerte, a curiosidade, aquele gostinho de quero mais. O desejo é o encontro, a escolha, o coração aos pulos, aquele frio na barriga. O dar conta, ah, dar conta é outra história. É o emocional vestido de racional, são as vísceras gritando, os medos dando o tom. dar conta é tornar realidade a mistura de vidas, a junção de rotinas. É em parte se refazer e um bocado de coisa redimensionar para caber o outro. É dar conta de ser no plural. É manter o amor por si mesmo e também pelo outro. Dar conta é o exercício diário. Depois de dar conta ainda tem dias que despertam o interesse, e noites que alimentam o desejo.

Retalhos

De cada amor vivido, Os arrepios na pele, Os sopros de delicadeza na alma, Os sorrisos, Também os medos, Os aprendizados sobre si e o outro, As cicatrizes dos tombos inevitáveis, O desejo de recomeço, Aquilo que bota no corpo uma outra vez. De cada amor vivido, A gratidão pelo que foi vivido E principalmente de tudo que outra vez virá Refeito Maduro Feliz.

Expectativa

A proximidade do réveillon trouxe a expectativa Passaremos juntos, pés na areia, mãos dadas A virada será em meio a beijos Ela até compro aquele vestidinho lindo que viu na vitrine Riu imaginando a cara dele ao vê-la pronta para a festa E se permitiu imaginar um pouco mais Mas já era metade de dezembro Eles mal se falaram naquela semana E ela não sabia como falaria do convite Nem tão longe na cidade, mas muito distante nas ideias Ele não havia pensado no tema Gostava dela, mas gostava muito mais dos fogos Ela ainda não tinha admitido Mas o coração ia dar uma pontadinha na virada E ela pularia as ondas, desejando um Ano Novo com mais sorte no amor

Codo a codo

A Pátria de joelhos O asco instalado O porvir que assusta As suas mãos são meu cais A sua voz o meu porto seguro A sua boca o meu aconchego Deixemos Mario Benedetti falar: Tus manos son mi caricia  mis acordes cotidianos  te quiero porque tus manos  trabajan por la justicia  si te quiero es porque sos  mi amor mi cómplice y todo  y en la calle codo a codo  somos mucho más que dos  tus ojos son mi conjuro  contra la mala jornada  te quiero por tu mirada  que mira y siembra futuro  tu boca que es tuya y mía  tu boca no se equivoca  te quiero porque tu boca  sabe gritar rebeldía  si te quiero es porque sos  mi amor mi cómplice y todo  y en la calle codo a codo  somos mucho más que dos  y por tu rostro sincero  y tu paso vagabundo  y tu llanto por el mundo  porque sos pueblo te quiero  y porque amor no es aureola  ni cándida moraleja  y porque somos par...

Desisto

Tá, eu desisto Desisto de ser forte Desisto de carregar bandeira Desisto da fé nos dias melhores Desisto da certeza de que duas pessoas ficam juntas pelo principal motivo de se fazerem bem Desisto da política Desisto de lutar contra o machismo contra a homofobia e o racismo Eles venceram E eu mal sei quem eles são Apenas que são muitos

Juju

Juju sempre foi linda Não, não estou  me referindo às medidas de quadril e cintura Ela sempre teve brilho próprio Luz Alegria de viver que fugia pelos olhos e sorrisos Aí ela conheceu um cara Um cara muito bacana Tão bacana, mas tão bacana, que parecia muito melhor que ela Ele era tanto, que sobrava pouco pra ela Juju foi encolhendo E ficou do tamanho inverso do egocentrismo dele Apagou os olhares Desceu o tamanho da saia Esqueceu os decotes Ela era a namorada dele e isso bastava Era por amor que ele lembrava a ela que aquela roupa não ficava bem Era por amor que ele queria que ela saísse do trabalho Era por amor que ela deveria parar de ver algumas amigas Era por amor... Eu já fui Juju Custei a seu Maria

Palavras

Quando eu te vi E senti Quis te dizer algumas coisas Palavras Sentidos Prazeres Sobre nós Queria que soubesse de novo dos desejos quereres quase segredos que eu fingi não existirem Mas havia fatos e contra fatos não há argumentos As palavras ficam pra depois outro dia outro caso outro sentimento Outro amor.

Combinado

Tudo bem, eu aceito sua proposta: a gente vai se curtir sem se envolver. Apenas preciso que siga uma singela lista de proibições. Está proibido: - contar qualquer coisa interessante da sua vida, nem mesmo a forma como aprendeu a temperar o filé, nem contar daquela viagem à Índia; - falar da sua vida familiar afetiva, mostrar a foto do seu sobrinho, melhor mesmo não falar nunca sobre crianças; - gostar de música boa e (terminantemente proibido) tocar violão perto de mim; - me olhar nos olhos e deixar, ainda que por segundos, a alma falar; - pronunciar com afeto o nome de qualquer pessoa da minha família, inclusive o meu cão; - conversar sobre literatura e lembrar passagens de livros inesquecíveis; - falar sobre política mantendo sua visão humanista sobre o mundo; - usar aquele perfume e exalar seu cheiro natural; - passear as pontas dos dedos sobre a minha pele; - se sentir em casa quando estiver perto de mim; - ser minha morada, ainda que apenas no momento presente. Sei...

Linguagem

Ele gostava das reticências, apostos, frases longas... Ela queria a frase em ordem direta Uma simples equação: eu + você = todos nós Quando ela era direta Ele lançava mão dos emoticons E a frase, aquela, ficava perdida em algum canto da boca

Eu te amo

Quando se despediram pela manhã, ela disse o carinhoso "eu te amo", "eu te amo também" ele respondeu. Rotina. Todo dia eles fazem tudo sempre igual. As tarefas, os cuidados com as crianças, as compras da casa, as viagens de férias. O "eu te amo" fazia parte do cenário, assim como os móveis, o condomínio do mês, a professora da escola. A professora da escola tinha um jeito sério e doce. Ele sempre olhou para ela, interessado em saber mais. Ela nunca deu espaço. Foram passando os dias, os meses, mais de ano. Foram aproximando as conversas, os interesses, as mãos. Numa tarde de chuva, aproximaram os lábios, os corpos, as almas. Estava feito. Era com a professora que ele sonhava. Era ela quem ele desejava. Era o cheiro dela que entorpecia. Era o colo dela que acalmava. Passaram os meses. Outra vez era uma tarde de chuva, ela fazia um café para os dois. Enquanto olhava aquele homem que havia se instalado no seu ser, ela disse um sonoro "eu te amo"...

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra Um obstáculo Um mirante Um atalho Um ponto para o salto Uma barreira intransponível Uma certeza de mudança No meio do caminho tinha a vida Plena Onipresente Dizendo quem é que manda

Back on track

Tudo nos seus lugares Todo o para casa feito Caminho trilhado e percorrido Tudo certo como dois e dois são cinco O que será que será Que dá dentro da gente e que não devia Que desacata a gente, que é revelia Que é feito uma aguardente que não sacia Que é feito estar doente de uma folia Que nem dez mandamentos vão conciliar Nem todos os ungüentos vão aliviar Nem todos os quebrantos, toda alquimia E nem todos os santos, será que será O que não tem descanso, nem nunca terá O que não tem cansaço, nem nunca terá O que não tem limite

Hora do desencontro

Se reencontraram por acaso. Nem tão por acaso assim, um sabia da grande chance de topar com o outro por aquelas bandas. Fizeram aquela cara de "que boa surpresa" e seguiram o dia com o que não tinha nada de inesperado. Conversaram, se beijaram, quase se reencontraram. Havia, no entanto, um grande senão. Nada que pudesse ser explicado. Apenas estava claro. Se despediram com um beijo com carinho que, na verdade, queria dizer apenas o famoso "a gente se vê".

O avesso do avesso

Naquela noite maldita, sonhou com ela. Nas mãos, ele tinha uma flor e uma faca. O que aquela flor fazia ali? Diante da imagem dela, como se fosse nela, como se fosse nele, decapitou a flor. Pela manhã ainda sentia o cheiro das rosas. Se assustou quando viu que um espinho lhe espetara o dedo. Procurou pela faca. Na noite seguinte, se entupiu de rivotril. Melhor não sonhar de novo. Chego a mudar de calçada quando aparece uma flor, e dou risada do grande amor. Mentira.

Menina

Ah, menina, eu também já fui assim Entrava nas brigas Formava grupos das meninas melhores que as outras Me achava mais bela, mais esperta E claro que seria melhor esposa, melhor mãe, melhor profissional Ah, menina, eu também achei que meu brilho era inabalável E fiz escolhas erradas - que eram as possíveis Ah, menina, um dia a gente cresce E vira uma mãe que também cede Uma esposa que apanha Uma profissional jogada num mar Ah, menina, a vida mostra os dentes E aí a gente entende que não manda e pouco escolhe Que não tem bem nem mal Certo nem errado Melhor nem pior Ah, menina, talvez isso chame maturidade A gente aprende a ser flexível A ser feliz com o sol que nasce e a flor que germina A gente aceita ser miúda, ainda que jamais pequena

Medo, uma escolha?

Chapeuzinho amarelo diante do lobo O medo é mesmo inevitável De repente, o chão se rompe Medo de seguir, medo olhar Medo de saber o que sobrou Mas ficar paralisado de medo é uma escolha A vida tem tanto "não" mas tem tanto "sim" Tem escuridão, tem luz Tem chuva e tem sol Tem medo e tem o desejo de seguir em frente