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Mostrando postagens com o rótulo Maria Maria

Colcha de retalhos

Tinha a alma feito colcha de retalhos Marcas Histórias Detalhes e narrativas Muitas cenas Gastas pelo tempo Mas ainda lindas Com e leveza do amadurecimento A colcha Tão ela Aquecia o amor Que acabou de chegar

Conselho

Pense bem antes de se aproximar: ela é mãe! O coração dela bate também em outro peito Ela tem muito sono à noite E frequentemente cheira à criança Ela tem o riso como prioridade Ainda que sempre esteja atenta aos riscos Ela desliga de qualquer assunto quando conta história E normalmente prefere os chinelos ao salto agulha Ela já pariu e conhece bem o próprio corpo Ela já teve medo de uma gripe à toa Ela agradece cada manhã de sol Ela sorri É doce e brava Moleca e senhora Feliz e cansada Inteira e metade Junto dela há uma criança E isso não será simples Nem fácil Mas será único Impossível amá-la sem ser no plural Ela e seu lar movimentado Ela e suas faces Ela e seus corações

Retrospectiva musical

Da porta pra fora, a música do ano pulou do baú: Que país é este? Porque foi lama pra todo lado. Com direito a transformar letra do Caetano em manifesto político, porque "Eu odeio você, CUNHA!!!!!" Fica um alento, um sopro de esperança, que a lama vai salvar alguma coisa, nem que seja um pouco de vergonha na cara. Da porta pra dentro... nossa, teve de um tudo também, inclusive muita lama. Sempre bem acompanhada de Chico, Baleiro, e tantos amores. Mas teve um garimpo de ouro. Eu que tenho os olhos tão gigantes e a boca tão gostosa (tsc tsc) virei os olhinhos com essa música. Tanta doçura que enche o peito de vontade de amar miudinho, de ficar aninhada, de acreditar no amor. E a trilha que tirou lágrimas veio da Tiê. Dramática e cheia de palavras, feito eu afundada nos dias tristes. Assim como a lama da crise política, esta me deixou lições. " Pro tanto que eu te queria o perto nunca bastava E essa proximidade não dava Me perdi no que era real e no ...

A solidão me apresentou a mim A minha risada mais gostosa Os meus desejos Quereres Impulsos Pulsa A solidão me deu a liberdade Soltou nós Fez-se asas Longe Estranhos Descobertas Eu fui A solidão, essa parceira Me ensinou tantos caminhos De amor De carinho De palavras doces De dia a dia preenchido De doçura A solidão veio pra ficar Muito bem vinda E quer conviver com você Morar entre nós Entre uma gentileza e outra

Flores

Cuidar das flores dá trabalho Esperar por elas requer paciência Química certa entre terra, ar e fortificantes Podas às vezes duras O tempo certo As flores são intempestivas Frágeis Delicadas Perfumadas Trabalhosas E lindas Diante da beleza Ainda que efêmera Muda o sentido Alegra os corações

Sentidos

Os olhos sem foco permitiam ver o que estava dentro A música vinha de fora e a conduzia pelos pensamentos entranhados A pele inerte a qualquer estímulo Quanto mais se adentrava Quanto menos a visão alcançava Quanto mais os sentidos se bloqueavam Mais sentia a pulsação própria As verdades das sensações escondidas A narrativa das entranhas As palavras únicas da solidão

Simples

Trocaram olhares Palavras Sorrisos Beijos Abraços E carícias Se gostaram Se envolveram Se misturaram Decidiram compartilhar uma parte da vida Foi do tamanho que tinha que ser E foi bom

Amiúde

Amiúde Ele estava nos sonhos Nas preces Nas expectativas Também amiúde estava na rotina Nas conversas do cotidiano No compartilhamento do miudinho Com todos Amiúde Os carinhos O colo As carícias A sós

Só o que me interessa

Por fim o que interessava era pouco E era tudo O brilho nos olhos e o sorriso leve eram resultado de um cotidiano banal Por perto estavam os que iluminam o viver Um que iluminava o outro Com pequenos gestos Gentilezas O ar arejado Os desejos despertos Os pés livres As mãos dadas A paz O sossego único da harmonia no ritmo da respiração Os peitos que batem nos mesmos acordes O quase milagre dos encontros simples Só o que me interessa " Às vezes é um instante A tarde faz silêncio O vento sopra a meu favor Às vezes eu pressinto e é como uma saudade De um tempo que ainda não passou Me traz o seu sossego Atrasa o meu relógio Acalma a minha pressa Me dá sua palavra Sussurra em meu ouvido Só o que me interessa." - Lenine

Alegria

A alegria escapava nos olhos Contornava o corpo mais magro Impulsionava o sorriso espontâneo Sem motivo específico Brotava de dentro E florescia A temporada da alegria Que espalhava beleza Durava o tempo do equilíbrio Amém

Personagem

Começou a ler o livro e não podia acreditar: era a história dela narrada ali. A dela, a dele, da outra e do outro. Foi misturando fantasia e realidade. Se via nas cenas descritas. Como podia ser tudo tão real? Se eu livro não tivesse sido publicado antes de ela nascer, teria certeza de que foi seguida. Serão mesmo as artimanhas do amor tão banais?

Mãos

O amor se manifestava nas mãos Elas percorriam o corpo dele Escaneando cada pedacinho As pontas dos dedos sabiam exatamente como era a nuca dele O contorno dos lábios e do nariz O suor que corria nas costas Quando estava longe As mãos sabiam refazê-lo inteiro Forma, textura e calor

Broto suculento

Era um broto fino de amor A terra era fértil, a água fresca O sol vinha vindo O broto queria crescer Folhinhas miúdas Poxa, ainda sabia se desenvolver depois de um longo inverno Crescer era pura adrenalina Também trazia antigas dores E todo o medo de ver-se grande outra vez Enquanto crescia Se distraia com a joaninha que passava Sentia nojo do rastro do caramujo Passou por tempestades E quando parecia crescidinho Suculento Veio um passarinho e comeu Fim.

Vou te contar

Vou te contar Antes de chegar aqui eu vivi Eu dei gargalhadas, chorei rios Ah, eu transbordei E de tudo Todos os amores Os temores Os tremores Ficou um suave quero mais Sem medo paralisante das quedas Com certo orgulho das cicatrizes Remendos alinhavados com amor E a alma livre pra recomeçar Vou te contar Os meus olhos querem ver As mãos querem sentir O meu peito quer bater E você tem a ver com isso

Olhos e mãos

Ela não era de falar Deixava que as palavras brilhassem com os olhos Corressem com as lágrimas Ou as esmagava com as mãos Os olhos atentos viam tudo E a cada vez com o coração apertava Ela apertava as mãos Naquela tarde fria Ela viu ele se aproximar De longe, sentia o seu calor De longe, viu que os olhos dele tinham outra direção Os olhos dela não pararam de olhar Mas as mãos se esmagaram Se esconderam entre as coxas E calaram, pelo menos naquele momento, o choro que queria gritar

Ela é mãe

Na casa dela sempre tem leite, banana, vodca e cerveja. No orçamento tem gandaia, babá e escola. Conversa com desenvoltura sobre sexo e receita de bolo de laranja. Quer um mundo melhor, e quer a vida agora. A vida dela tem norte. O coração dela tem dono. O sentido da vida dela está posto.  Tem noite de sábado em que ela só quer dormir. Outras que ela só deseja que não acabem nunca. Ela entende de pés no chão, de cheiros, de amor orgânico, de almas misturadas. Ela é ela, de olheiras e rímel, falando sobre a Peppa, usando minissaia.  Sorriso sem freio, antena que não desliga. Ela conhece o próprio corpo e seus instintos. Ela se sabe parte de um mundo em que há muito mais.  Ela ama. Ama com o útero. Mas apenas quem merece.