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Pupila acesa

E a pupila acesa do seu olho disse LOVE Era o raio gourmetizador da vida Não tinha jeito, estava explícito Era amor Podia negar, rogar pragas, fazer preces Podia buscar outros lábios, beber até cair Podia jurar um carnaval de pura folia Tudo em vão Era amor O jeito era aceitar os fatos Se ajeitar com esse sentimento que vem de nós e demora Deixar escapar os sorrisos Os suspiros O brilho nos olhos Porque amar alguém só pode fazer bem E qualquer amor já é um pouquinho de saúde Quando vê já foi pro pensamento Já mexeu na sua vida, já varreu sua razão Acelera a asa do sorriso Muda o colorido, vira o ponto de visão (...) Livre, quando vem e leva Lava a alma, leve e vai tranquila E a pupila acesa do seu olho disse love Lenine

Eu te amo

Quando se despediram pela manhã, ela disse o carinhoso "eu te amo", "eu te amo também" ele respondeu. Rotina. Todo dia eles fazem tudo sempre igual. As tarefas, os cuidados com as crianças, as compras da casa, as viagens de férias. O "eu te amo" fazia parte do cenário, assim como os móveis, o condomínio do mês, a professora da escola. A professora da escola tinha um jeito sério e doce. Ele sempre olhou para ela, interessado em saber mais. Ela nunca deu espaço. Foram passando os dias, os meses, mais de ano. Foram aproximando as conversas, os interesses, as mãos. Numa tarde de chuva, aproximaram os lábios, os corpos, as almas. Estava feito. Era com a professora que ele sonhava. Era ela quem ele desejava. Era o cheiro dela que entorpecia. Era o colo dela que acalmava. Passaram os meses. Outra vez era uma tarde de chuva, ela fazia um café para os dois. Enquanto olhava aquele homem que havia se instalado no seu ser, ela disse um sonoro "eu te amo"...

Aqui jaz

Aos pés daquela montanha jaz um homem que amei Com as estrelas como testemunhas, eu me entreguei, de corpo, alma, cheiro, odores, palavras e lágrimas  O eco da cachoeira canta o nome dele, a correnteza embala a nossa história Bem perto daquela capela, sentindo o cheiro de Deus, eu fui feliz Mas naquela manhã, cegos de razão, mataram o amor

Ela é mãe

Na casa dela sempre tem leite, banana, vodca e cerveja. No orçamento tem gandaia, babá e escola. Conversa com desenvoltura sobre sexo e receita de bolo de laranja. Quer um mundo melhor, e quer a vida agora. A vida dela tem norte. O coração dela tem dono. O sentido da vida dela está posto.  Tem noite de sábado em que ela só quer dormir. Outras que ela só deseja que não acabem nunca. Ela entende de pés no chão, de cheiros, de amor orgânico, de almas misturadas. Ela é ela, de olheiras e rímel, falando sobre a Peppa, usando minissaia.  Sorriso sem freio, antena que não desliga. Ela conhece o próprio corpo e seus instintos. Ela se sabe parte de um mundo em que há muito mais.  Ela ama. Ama com o útero. Mas apenas quem merece.

Lençóis

Era um amor maduro. Cada um na sua casa, com o seu cada qual. Se amavam sem se engolir. Se desejavam, e a saudade apimentava o querer. Os encontros eram constantes, assim como as conversas, as entregas e os beijos. E tinha ainda os planos a dois. Um dos momentos mágicos, daqueles que nutrem a alma, era quando ela estava sozinha, mas podia sentir o cheiro dele nos lençóis. Aquele perfume de homem, instalado na cama dela, no corpo dela, nos dias enfeitados pela presença dele. Um girassol nos teus cabelos Batom vermelho, girassol Morena flor do desejo Ah, teu cheiro em meu lençol!!! Desço pra rua, sinto saudade Gata selvagem, sou caçador Morena flor do desejo Ah, teu cheiro matador!!!

Oração

Agarrada à santinha, fez a prece. Queria um amor. Um amor verdadeiro, desses que embalam a vida, desses que reforçam a crença nas bênçãos de Deus. A oração foi feita com fervor, e também intensa era a certeza de que seria atendida. A partir daquele momento, via o amor pra onde quer que olhasse. Pegou o ônibus, rumo ao trabalho. O trocador a olhou diferente. Estranho, pois se viam todas as manhãs. "Agora tenho a força da prece", ela pensou. Quando olhou para ele, as bochechas ficaram rosadas. Diante da cena, ele sorriu. Entrou e procurou uma cadeira. Sentia ainda o coração disparado, tocado pela força da fé.  No ponto rotineiro, desceu. Na mesma loja de todos os dias, trabalhou. Atendeu os clientes, vendeu as bugigangas. Por algumas vezes, lembrou da troca de olhares.  Antes de dormiu, nem rezou. Apenas agradeceu. Os dias passaram e ela não mais viu o trocador. Teria ele mudado de horário? De emprego? Seria casado e a esposa descobriu que ele se apaixonara, irremediave...