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ano feio

O ano feio nos jogou pra dentro A rua ficou desagradável Era preciso o refugio de casa Refugio? A morada acolhe nas miudezas cotidianas O gosto do café quente A clareza das manhãs Quando a vida na rua fica hostil A casa fica exposta E não há flores de plástico que entorpeçam pelo perfume Mas se as flores são de fato De terra, perfume, fragilidades e fortalezas No tempo certo aquecem a morada E não há rua hostil que nos quite a primavera

Chegada

Você chegou naquele dia de inverno, tão azul, numa mensagem de carinho e boas vindas Foi naquela praia, debaixo de chuva, o céu cinza anunciava as almas lavadas Naquela madrugada, sob as estrelas, me contando da sua viagem de barco, você me encontrou Ou teria sido numa rodinha de violão, coração na boca, sentimentos em dó maior Sei que você chegou Se instalou Hoje está aqui O ontem tanto faz

Entorpecidos

O assédio machista A manobra grotesca no Congresso O avião no chão Tanto susto, que ficamos feito entorpecidos Que nos queime o sangue Que nos salte aos olhos Que nos core a pele Que nos fuja o grito dos pulmões Precisamos, urgente, de um golpe insano de fé em dias melhores E coragem, muita coragem, para ver e dizer que não.

Bilhete

Escrevi entre os pelos do seu peito um recado Os dedos deslizaram, hábeis Cravaram ali tudo que nos conectava O bilhete falava daquelas coisas que são maiores que as palavras A linguagem dos poros Aquilo que alimenta nossas almas O seu coração leu o bilhete Respondeu aos galopes Quando me sentiu aninhada em você "Amor!"

Silêncio

De tudo, o mais sagrado é o teu silêncio Os momentos que dispensam palavras Os textos ditos pelas pontas dos dedos Os argumentos irrefutáveis que saltam dos olhos A paz que sentimos na simples presença do outro As palavras nos acompanham na lida As histórias narradas As vidas compartilhadas em prosa O teu silêncio é pura poesia Traduzida na minha pele

Quase

Ainda faltam 45 dias E já aprendi que isso é tempo demais para um ano intenso Mas já se pode dizer unas cositas sobre este 2016: O grande meteoro bateu na Terra e ele se chama estupidez A adversidade provoca mudanças estruturais, o que tambem pode ser bom O amor se multiplica, e brota de novo, onde a gente se permite ver. 2016 está prestes a acabar, mas suas marcas permanecerão por anos, anos de travessia .

Pés

Gosto do que me dizem os seus pés Quando te trazem até aqui Quando se livram dos sapatos rumo ao meu sofá Quando se entrelaçam com os meus na preguiça de uma manhã de sábado Gosto dos seus pés firmes na lida diária Pra cima junto dos pensamentos vãos Misturados aos meus em momentos mágicos Em outras terras, num intenso viver Se é verdade que meu lar é onde estão meus sapatos Que o meu sapato num longo tempo doce pise no seu