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Sem noção

- Alô, você não deve se lembrar de mim. Eu peguei seu telefone com você há mais de um ano e fiquei todo esse tempo sem saber se ligaria.  - Ãh. - Fiquei sem saber se ligava porque sou um homem casado. - Como é? É casado? - Sim. - Não temos nada o que conversar. Tchau. Será que tive uma alucinação ou esse tipo de gente realmente existe?

Obscura trama

Ela estava amarrada, imóvel. Ele estava em surto, irado. Irredutível. Foi seguindo o seu plano macabro. Tirou gota por gota de sangue. Enquanto pode, ela gritou. Até apagar. Pego em flagrante, ele foi preso. Ela já morta. Anos a fio, ele definhou na prisão. E o que lhe mantinha vivo era lembrar a alegria de viver que ela tinha, e que, um dia, foi compartilhada com ele.

Estouros

Estourou o cano Estourou o piso Estourou a tinta da parede Estourou o orçamento Estouraram os conceitos Estouraram os sentimentos Estouraram as convicções Estouraram as formas que antes serviam Não tem jeito, tem que consertar Enfiar a mão na massa E já que vai mexer Que seja melhor

Hora do desencontro

Se reencontraram por acaso. Nem tão por acaso assim, um sabia da grande chance de topar com o outro por aquelas bandas. Fizeram aquela cara de "que boa surpresa" e seguiram o dia com o que não tinha nada de inesperado. Conversaram, se beijaram, quase se reencontraram. Havia, no entanto, um grande senão. Nada que pudesse ser explicado. Apenas estava claro. Se despediram com um beijo com carinho que, na verdade, queria dizer apenas o famoso "a gente se vê".

Plano de vôo - cagando regras

Pode beijar, mas está proibido esquentar o clima. Pode trocar mensagem, mas nada de parecer muito interessada. Pode ter química, mas não vá empolgar. Pode fazer tudo fora da cartilha, só não conta para as amigas. Pode ir pra cama, desde que não exista compromisso. Pode sentir tesão, desde que saiba que isso não é amor. Pode sair um dia por semana, mas não mais do que isso para não virar compromisso. Pode amar, mas saiba que tem que ceder. Pode ceder, mas lembre-se de ser você. Pode ter paciência e compreensão, mas nada de ser submissa. Pode querer o que quiser, mas cuidado para não ser exigente demais. Pode cagar qualquer regra, só não vale ser espontâneo.

Varetas

O jogo tem puro gosto de infância. Colorido, bastante atraente para a época, sempre apresentado como desafio. Pegar uma vareta sem mexer com as demais. Ter um alvo. Retirar apenas as amarelas. Ganhar o troféu pegando a única preta. O jogo continua vida afora, no coração. Entre tantos sentimentos misturados, é impossível escolher apenas um sem mexer com os outros. Quero só os amores, bem vermelhos, mas tenho que achar lugar para as outras coisas, sejam elas verdes, amarelas ou azuis.

Sargenta

Ela olhava vigilante. Braços cruzados, olhos fixos, nem esboço de sorriso. Cena difícil de entender num ambiente descontraído. Na outra ponta da lança dos olhos estava ele. Tentava agir como se estivesse livre. Mas era impossível não ver a sargenta que vigiava. Vigiava o quê, meu deus? Medo de ele ver outra bunda que passava, medo de ele ser irremediavelmente flechado pelo cupido, medo de ele ver que a vida existe além dos olhos dela? E sob a lança, ele vivia.