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Calor

Sobem os termômetros Sobem as alturas das saias O corpo fica meio anestesiado Os pensamentos, torpes As pernas bambas O corpo molhado O gosto de suor A pele queima Desta vez não era você Desejo meu Foi este tempo maluco Quem me comeu

Sistema

Tinha o plano definido. A partir de agora não se ludibriaria com sonhos vãos. Seus passos seguiriam apenas no sentido do que tinha alguma garantia de bons frutos. A paixão seria comedida e o coração não bateria com entusiamo nas situações de risco. Estava tudo certo. Só faltava aquele cheiro deixar de atiçar. Aquele gosto não ser assimilado a momentos de prazer. O ritmo daquela respiração não embalar. Era uma questão simples, de trocar todo o sistema operacional, reformatar a máquina e recomeçar como se o antes não tivesse existido.

Às avessas

Ela queria dizer "chega mais perto, eu sinto falta de você", mas temia a resposta dele. Ele queria dizer "estou curtindo, assim no meu ritmo, talvez mais lento que o seu", mas temia a reação dela. E diante desse sentimento de quase, de uma expectativa meio tensa, ela disse num desabafo, quase uma catarse, "vai embora! se não me quer me deixa seguir". Ele não disse nada. Ambos sentiram saudade. De fato, eles se gostavam. Tinha muito bem querer, além da tensão do quase, além do risco de querer mais. Ela sofria com o silêncio dele. Ele fugia dos excessos dela. E assim, às avessas, eles quase viveram um amor.

Efeito palavra

A gente estava lá em casa, no sofá. Noite leve, delícias, um miudinho tão especial. Passava aquele filme. Eu cochilei no seu colo. Acho que até babei um pouco. Quando acordei você me contou da cena que perdi. A gente estava feliz. Era tudo tão nosso que ninguém se preocupou em dizer nada. Ah, essas palavras que congelam o que deveria apenas fluir. Eram apenas nós, os nossos cheiros, as nossas ideias, a nossa presença, a nossa sintonia, a nossa alegria. Não faltava nada, muito menos palavras. A cena ainda me nutre a alma. Pílula de alegria nada clandestina. A simplicidade do eu e você.  E na manhã seguinte a gente pertencia à cidade, a tantos outros, a tudo, menos a nós. Eu imagino a cena de ter te dito, docemente e decidida, "fica!". O nó da palavra. Fica na minha pele, fica na minha alma, fica nesse tempo à toa de nós dois. Fica perto, porque nessa noite, jogado no meu sofá, fincou bandeira no meu coração. 

Amor genuíno

De tudo Ficam os gestos mais simples Singelos Íntimos Nossos As suas pegadas em mim Foram feitas por seus olhos Cada olhar, um sentimento As pistas sem disfarce sobre você  Os momentos solenes Tinham as mãos dadas Os dedos entrelaçados O jeito genuíno de amar

Dímelo

Dime Dímelo Pero dímelo sin palabras Dímelo con tu boca en la mía Tus manos en mi cuerpo Y tu sudor Dímelo así Y puedo tocar tus palabras Caminar por tus textos Anidar en tu melodía Dime Soy toda oídos Y manos Y piel Y todo