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Verbo

De todos os verbos, escolho o FLUIR Pegar o tom Sintonizar na energia Seguir o fluxo Ir e deixar ir Que venham as pedras As flores Os galhos Os cheiros Os gostos Os que sejam No tempo certo No ritmo certo Vida que flui

Uma dose de amor

Se encontraram no local combinado. Uma cena já conhecida dos dois. Ele viu a alça do sutiã dela e entendeu. O perfume dela trazia boas lembranças. Conheciam os olhares, os sorrisos, as palavras não ditas do outro. A noite foi exatamente como esperavam. Conversa boa. Argumentos intrigantes. Debates e sorrisos. Pele. Beijos. Conheciam todo o roteiro. Beberam juntos. Mais uma dose! Se olharam. Se viram. Se corresponderam. Carícias. Olhos nos olhos. Falaram da vida, das crianças de hoje e as que virão. Contaram as trampas da rotina louca.  "Você emagreceu? Esta tão bonita!" Eram cúmplices, entregues. Dormiram abraçados. Pela manhã se despediram com um beijo doce. "Que tenha um bom dia", disseram, como se assim fosse. Ela voltou à cama e tragou mais uma vez o cheiro dele que ainda morava nos lençóis. Guardou na memória. Até a próxima dose.

Desejo

O desejo Este obsessivo incansável  Inflama Se sobrepõe a tudo Tira do eixo Dispara hormônios Suores Prende os pensamentos Ativa a imaginação  Convida pra roda Samba Estremece Faz a festa Perde o juízo Perde a razão  Perde o rumo de casa Ele, o desejo É o irmão mais maduro da paixão  Efêmero  Único Quando está presente é dono de tudo Quando vai embora deixa rastros Palavras engolidas Um sorriso no canto na boca

Quem é você?

Cada um é o que aparece no espelho E também em cada foto, posada ou espontânea É o que diz sem pensar quando acorda Enquanto dorme Quando bebe Quando sofre E quando não cabe em si de tanta alegria É o que escapa no sorriso Nas palavras duras Nos gestos Na rotina É a soma de cada amor Do que o vento trouxe e levou Cada banho de mar Cada mergulho de cachoeira Cada pé torcido Cada arranhão - no corpo, na pele, no peito, na alma É o que decide E as consequências do que escolheu Tudo que fez, faz e fará Para ser aquilo que parece com o que aparece no espelho

Parafusos

Tinha os parafusos bem apertados, e mal podia se mover Para ter liberdade, foi soltando um a um Ficaram bem frouxos Foi onde quis E quis ir a vários lugares Os parafusos frouxos permitiam o movimento Mas todo o corpo ficava sem controle Sem hora nem lugar de parar Identificou alguns que podiam ficar mais firmes Apertou, com parcimônia E foi buscando o ponto certo de cada um Uns apertados, uns frouxos, uns soltos Alguns até se perderam, e nunca fizeram falta Outros sustentavam, imóveis Cada um de um jeito Num equilíbrio perfeito

Meninos e meninas

Aos 6 anos: - Eu estava olhando para ele de longe, sem ele me ver. Aí ele viu. Viu, veio correndo, me disse "oi!". Saiu correndo e foi brincar com os meninos. Eu queria falar com ele, mas não consegui. Aos 20 anos: - A gente estava no mesmo bar. Não havíamos combinado. Mas de repente estávamos os dois, ali. Eu sei que ele queria me ver. Eu queria muito que a gente se encontrasse. Ele me viu de longe, sorriu, olhou para o chão. Eu ia me aproximando, quando uma menina parou pra conversar com ele. Fui para o outro lado. Depois vi que ele foi embora, sozinho. Aos 40 anos: - Soube que ele se casou, teve dois filhos. Depois se separou. Dizem que está arrasado. Homem lida tão mal com sentimento, com refazer a vida. Será que ainda vai naquele bar? Estará careca? Barrigudo? Ainda terá aquele sorriso sem vergonha? Será bom pai? Quem sabe não vejo ele meio perdido, naquela festa da semana que vem? Desta vez pago pra ver.

Framboesa

Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa Ou os ipês floridos As águas geladas e restauradoras O colo de Oxum Pra correr entre os canteiros Subir as montanhas Lavar a alma Restaurar o corpo E esconder minha tristeza Deixar o sol me invadir Dissipar o que fica contido Simplesmente, sorrir