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Pra sonhar

Que se danem o senso crítico, a Pós Modernidade, os profissionais do mau agouro Que fique no passado o que nos passou Non, rien de rien Quero me casar ao som de Marcelo Jeneci Assim "Pra sonhar" E nos entorpecer para viver os dias cinzas Eu aceito pagar língua, assumir-me irremediavelmente romântica Com a licença de Pessoa, ser ridícula Ao seu lado.

E bota no corpo uma outra vez

Subiu no armário Buscou o saco com as fantasias e os apetrechos de carnaval Riu ao lembrar do dia em que usou aqueles cílios postiços E sentiu o coração gelado quando viu aquela saia de bailarina Era apenas objetos... carregados de lembranças e cheiros No cantinho da mente, tocava aquela trilha sonora As lembranças desbotadas de vodca Respirou fundo Misturou os acessórios novos com aqueles cheios de histórias Sorriu E decidiu se jogar nos braços do Rei Momo Como se fosse a primeira vez

Dar conta

Para que fiquem juntos, é preciso e inevitável passar por três estágios: 1. o interesse 2. o desejo 3. o dar conta. O interesse desperta o flerte, a curiosidade, aquele gostinho de quero mais. O desejo é o encontro, a escolha, o coração aos pulos, aquele frio na barriga. O dar conta, ah, dar conta é outra história. É o emocional vestido de racional, são as vísceras gritando, os medos dando o tom. dar conta é tornar realidade a mistura de vidas, a junção de rotinas. É em parte se refazer e um bocado de coisa redimensionar para caber o outro. É dar conta de ser no plural. É manter o amor por si mesmo e também pelo outro. Dar conta é o exercício diário. Depois de dar conta ainda tem dias que despertam o interesse, e noites que alimentam o desejo.

Amar-me

Amar é um ato solitário. Ama-se e arrancam-se os cadeados da alma para o outro entrar E a presença do outro nutre este amor Amar é sentir-se inflamado, temperado, no ponto, pronto a dedicar-se Ama-se o entranhamento do outro e busca-se aprender com o estranhamento que o outro traz E faz-se no dia a dia a caminhada possível Amar é insano Amar-te é olhar-me no espelho da vida Só mesmo um amante pode amar o amor

Partida e chegada

Houve um tempo em que o verbo era ir Movimentar, mudar de rota, transformar A nobre missão de passar de lagarta a borboleta Hoje o verbo é fazer morada Eu, tu, nós, eles A também nobre missão de se olhar sem medo De construir a vida no coletivo, de encanrar a rotina árdua do verbo (me/te/nos) amar

Maluco

Só pode ser louco Desse tipo que ama Diz que ama E ainda insiste em dar as mãos vida afora Parece que não é deste mundo Nem ouviu falar de amores líquidos Ama e pronto Louco! Só pode ser louco! Você e eu, distribuindo amor por aí

Eu te amo

Eu te amo até se diz com palavras Mas é muito dito em troca de olhares Em mãos dadas Pernas entrelaçadas No ritmo único de noites eternas Eu te amo também se diz em insultos descabidos Em acusações desmedidas Agressões viscerais Crias do medo de amar Eu te amo se diz do avesso Daquele lugar que pouco se controla Quase nada se sabe E muito se perde Eu te amo quer dizer que se está preso Não por simples vontade E sim pelos nós dados com as veias, os poros, os afetos, as (não)entregas, o desejo incontrolável de estar entrelaçado.